Momentos reais e imaginários


27/01/2010


Carta de agradecimento

Doce Luciana,

 

Eu não poderia deixar de agradecer tão singela carta ontem recebida.

Na verdade, sua carta de parabéns não é singela. Ela é profunda, uma vez que nos dias atuais, não é fácil e nem comum alguém expressar-se com clareza e também com tamanha simpatia.

 

Comprovo pelas tuas palavras que as mesmas são muito mais que palavras quando utilizadas por quem as levam a um patamar maior que apenas escritos criados.

Você, em maior grau que eu, faz essa transformação, essa alquimia, deixando claramente sua vida impressa nelas.

Realmente, não apenas as sombras de tua alma estão na última carta eletrônica e em outros escritos, mas também sua luz, seu sorriso, seu pesar e parte do seu ser.

Digo ao final do parágrafo anterior apenas parte do teu ser, pois o que vislumbro só verei na totalidade ao conviver além das letras contigo, e mesmo assim, o conhecer vai além do trocar palavras escritas ou ditas. O conhecer efetivo se vislumbra somente com a troca total ocasionada pelos olhares, trejeitos e silêncios junto à linguagem das palavras.

 

Termino agradecendo em separado à sensível poesia e a desejar uma ótima noite deste dia de feliz leitura.

 

Beijos saudosos em conhecer alguém e que eu seja agraciado sempre por suas palavras mais que perfeitas.

 

William

 

Escrito por William às 00h28
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17/01/2010


Carta a seguidora da Jane Austen

Querida Lú,

 

Tenho observado suas palavras e pensamentos como observas a obra da Jane Austen.

 

Peço que não fique preocupado, pois não sou biba! Mas como um apreciador e aprendiz da boa literatura, ao ler os romances dela fique impressionado com o poder de descrição de vidas não reais, mas ao mesmo tempo em que refletem a realidade de um tempo passado, porém tão atual. É uma obra fora do tempo, mas além do tempo.

 

Já você, Luciana, em alguns momentos parece-se bastante com uma mulher como a Jane, Emma, Lady Susan, Elizabeth e um rol imenso de seres quase celestiais, mas tão humanos, sujeitos às falhas, mazelas e ao amor.

 

Pensava eu que não existiriam mais mulheres como aquelas, mas com o passar dos meus dias, que já não são poucos, sempre vou sendo surpreendido pela capacidade humana em se renovar, e de se repetir.

Claro que muitas vezes, a dor e a intolerância renovadas obscurecem a renovação do poder que há em simplesmente viver amando e sendo feliz com o básico, sem pretensões de poder ou luxo.

 

Bem, longe estou de ser um Mr. Darcy ou Lefroy, mas posso dizer que em momentos de minha vida, são inspirações para mim.

 

Espero que viva sua história de amor, pois tem potencial para vive-la, não se esquecendo que tem potencial para escrevê-la também!

 

Desculpe a falta de jeito, mas como não escritor, não faço pós-produção em minhas palavras e como ser indisciplinado, não o conseguiria também, mas que os pontos em branco possam ser preenchidos pela sua percepção ou através de outras cartas abertas.

 

Beijos e prazer em conhcer-te!

 

William

 

Resposta a:

http://yannaywam.blogspot.com/2010/01/uma-carta-jane-austen-querida-jane.html

Escrito por William às 02h04
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04/12/2009


Uma noite no bolero com Graham Greene

CARLOS HEITOR CONY

Uma noite no bolero


No canto mais escuro da sala, silhueta enorme e meio curva, vi Graham Greene com uma loura



OS FESTIVAIS antigamente eram festejos dos outros. Havia a citação obrigatória: "Em seguida, o festejado autor...". Ora, se Maomé não vai à montanha que a montanha vá a Maomé, donde: se ninguém festeja os escritores, nada de mais que os próprios se festejem.
Os latinos tinham para isso uma frase amarga: "Asinus asinus fricat". Se os burros podem se coçar uns aos outros, a analogia é válida: que os inteligentes cocem os inteligentes.
Confraternização da Cultura Brasileira (Noite da). Palavras assim existem para essas horas. O gênio passeando pelos corredores empoeirados do Shopping Center, aferindo o próprio sucesso. A crítica recebeu muito bem o livro, o Adonias chamou-o de Faulkner e o Brito Broca de Flaubert.
Ninguém sabe o que está perdendo, mas ali está Flaubert dentro de Faulkner, e ambos dentro do sujeito magro e de paletó mal feito. Vem a bandeja dos salgadinhos e Faulkner se atrapalha com a azeitona que caiu do palito de Sartre (há Sartre também no Shopping Center).
Quem apanha a azeitona é o Dostoiévski do Piauí. Humildemente, com a insignificância de ovelha negra da classe, mastigo um magro pastel, sossegado e livre, perto do bar onde servem uísque. Aperto a mão de Sainte-Beuve e cumprimento obliquamente Henry Miller, que passa de braços dados com o Antonio Callado.
Pound me pergunta onde tem água mineral, eu aponto o fundo do bar, onde Balzac conta uma anedota envolvendo papagaio e mulher da vida. Saio do bar, evito Tolstói, que me deve R$ 500, espremo um lugarzinho entre Faulkner-Flaubert e empurro John dos Passos para conseguir um sanduíche. Abro o pão: tiraram o salame. Passa perto de mim o próprio Homero mastigando meu salame. Confraternização da cultura universal.
Armaram minha humilde tenda em frente à barraca do Graham Greene, o qual perambulava pelo Brasil como um delegado de um congresso pró-liberdade de não sei mais o quê. Não adiantou o poeta Walmir Ayala armar comício em frente à minha tenda: todo mundo ia para a barraca do autor do "Terceiro Homem".
Mas não havia terceiro, nem segundo, nem homem algum na barraca do Graham Greene. Pela minhas barbas passaram Alceu de Amoroso Lima, Gustavo Corção e Antonio Carlos Villaça. Naqueles tempos, os três rezavam e liam pelo mesmo catecismo e cartilha. Procuravam o autor de "Ensaios Católicos" para uma missazinha no Mosteiro de São Bento ou uma palestra sobre a Eucaristia no Centro Dom Vital.
Procuraram, procuraram, esperaram, esperaram, até que desanimaram: Graham Greene não viria ao Festival. Começaram a empilhar os livros, as fãs se dispersavam e a santíssima trindade do Centro Dom Vital foi para casa.
Saí de lá quando as luzes se apagavam. Não havia jantado e de repente desemboquei na calçada do Bolero, dando sopa para um sanduíche com chope honesto. Do andar de cima vinha o som da orquestra, aquele pianista que parece o Orson Welles dando socos no piano sem marfim.
Subi para ver as caras, há muitos anos não penetrava naquela pastagem do pecado. No canto mais escuro da sala, silhueta enorme e meio curva, vi Graham Greene com uma loura a tiracolo. Greene nem tirara da lapela aquele laço com nome e endereço que os congressistas usam para chamar a atenção dos que não dão atenção a nada. A orquestra tocava "A Noite do meu Bem", mas Greene teimava em cantar Siboney. A loura ria e o escuro da sala acentuava a caverna de sua boca com maus dentes.
Desci correndo à procura de um telefone. Mas as redações estavam fechadas. Tentei telefonar para o Alceu, o Corção, o Villaça. Mas o único telefone que encontrei foi o do Corção, inútil por sinal, o professor desliga seu aparelho após o canto das "Completas" e só torna a ligá-lo após as "Matinas" do novo dia do Senhor que se lhe abre à frente.
Villaça devia estar dormindo, e nem o Pão de Açúcar em erupção o despertaria. Saí então em busca de testemunhas. No "Le Roind Point" encontrei Antonio Maria e Paulo Francis. Voltamos ao segundo andar do Bolero. Graham Greene já tinha saído. Mas o garçom confirmou a história: "O inglês deu uma boa gorjeta. Sim, sim, levou a loura".

 

Folha de São Paulo. Ilustrada. 4 de dezembro de 2009.

Escrito por William às 22h42
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18/02/2009


Centro de São Paulo: algumas cenas

Para iniciar o trabalho, começo com retratos de acontecimentos no centro durante um final de semana:

Sábado:

- Turma de alunos de cursos de arquitetura se deliciam com prédios da Avenida São Luís

- Turma de moradores de rua se deliciam com o jantar oferecido pela Federação Espírita

- quadra da Vai Vai cheia de gringos e bacanas que gostam de samba na baixada da Bela Vista

- Na porta do meu condomínio sempre estão ali, em qualquer período do dia famílias completas de nordestinos que trabalham como camelôs pelas ruas do centro, incrível, mas falta coisa para fazerem, por isso ficam sempre papeando apenas. Mas garanto que ouço gargalhadas hilariantes deles!

 

Domingo:

- Bar Brahma lotado, motos maravilhosas estacionadas na São João com a Ipiranga

- Feira de Artesanato da República lotada, muita gente moderninha misturada ao povão e à mendigação

- Em frente, meninos de rua pedem um trocado no ponto de ônibus e um sujeito aparentemente bêbado toma uns empurrões de um segurança do Mc Donalds

- Restaurante italiano La Farina na Rua Aurora lotado

- Rua Guaianazes lotada de famílias provenientes do nordeste que não cabem em seus apartamento, e um pouco abaixo um horda de viciados em crack perambulam em tumulto contínuo com os traficantes os rodeando

- Avenida Rio Branco, altura da Ipiranga: dezenas de bolivianos jantam sentados junto às portas de estabelecimentos comerciais fechados. A comida é servida ali mesmo por outros bolivianos em seus carrinhos: o cheiro é bom, mas a aparência de uma sopa que vejo não é das melhores. Na saída do supermercado vários garotos de rua se aglomeram pedindo um trocado, um deles, aparentemente drogado repete tanto na minha ida como em minha volta: meu, eu não peguei seus documento... lembrei-me do surto das pessoas no filme “Fim dos tempos” onde as pessoas antes de se matarem começam a repetir seu último pensamento

- Festa gay na rua Vieira de Carvalho: incrível a quantidade de carrões nas imediações....

 

Fica clara a convivência de pessoas de várias classes sociais nesse espaço, ao mesmo tempo, elas estão distantes umas das outras. Não se conectam, não trocam experiências, e nem se distribui vida ou... bens! Ou há uma transferência de bens, de patrimônio ou o fosso social aumentará e chegará o dia em que a maioria pobre, desprezada, drogada se rebelará e tudo destruirá!

 

Escrito por William às 00h37
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28/08/2008


As igrejas cristãs nos EUA

Publico aqui os artigos a respeito das igrejas cristãs nos Estados Unidos.

Fonte:

Folha de São Paulo, de 17 de agosto de 2008.

Escrito por William às 00h23
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