Publico aqui os artigos a respeito das igrejas cristãs nos Estados Unidos.
Fonte:
Folha de São Paulo, de 17 de agosto de 2008.
Publico aqui os artigos a respeito das igrejas cristãs nos Estados Unidos.
Fonte:
Folha de São Paulo, de 17 de agosto de 2008.
Com nome de igreja episcopal, município vive cisão religiosa
BERNARDO CARVALHO
Enviado especial aos EUA pela Folha de S.Paulo
Falls Church [no Estado de Virgínia] é um desses subúrbios arborizados e residenciais na área metropolitana de Washington onde o pedestre passa por suspeito. São 8h30 e Carol Jackson está tirando sanduíches, bolos e bebidas da mala do carro estacionado em frente a um prédio comercial térreo, alugado pela congregação, nos fundos da igreja episcopal que deu nome ao município e cuja paróquia o próprio George Washington freqüentava antes mesmo de os EUA existirem.
Carol Jackson está entre a maioria esmagadora (90%) de membros da congregação da Falls Church que votou, em dezembro de 2006, por se desligar da Igreja Episcopal, num ato de desagravo contra a ordenação de bispos (abertamente) homossexuais.
"Esta rua era uma estrada de tabaco. Os colonos vendiam tabaco para o rei, para sobreviver. O tabaco vinha puxado por cavalos, sobre toras de madeira que rolavam até o rio. Por isso, esta rua era chamada de 'estrada de rodagem'. A igreja foi construída em 1767. Mas antes já havia outra, de madeira. Há igrejas que se chamam São Pedro, São João... A nossa é diferente. Chamavam-na 'a igreja na estrada para a cachoeira' ('the falls') e eu acho bonito", diz Jackson, diretora-executiva de uma associação imobiliária sem fins lucrativos, voltada para pessoas de baixa renda da região de Falls Church, enquanto dispõe os pacotes que trouxe do carro sobre a mesa da sala escura.
Por seu significado histórico e por ser freqüentada ainda hoje pela elite política de Washington, a igreja episcopal de Falls Church é um símbolo no epicentro de uma dramática disputa legal e política, que poderá resultar no esfacelamento da Igreja Anglicana mundial, dividida por uma guerra intestina entre conservadores e liberais --e por uma nova configuração geopolítica em que, ironicamente, a ascendência inédita das antigas colônias africanas convertidas ao cristianismo ameaça algumas das principais conquistas democráticas da igreja nos países desenvolvidos.
"Somos todos pecadores. Precisamos da cruz, de um líder que esteja acima dos pecados. Escolhemos ficar com o Rei", diz Carol Jackson, fazendo referência a Deus e à opção pela ortodoxia.
Nos últimos cem anos, a balança populacional de anglicanos no mundo sofreu uma reviravolta geográfica. Em 1900, 80% viviam na Grã-Bretanha e apenas 1% na África sub-saariana. Hoje, 55% vivem na África e apenas 33% na Grã-Bretanha (26 milhões). Para completar, a Igreja Episcopal (braço americano da Igreja Anglicana) passou a contar com apenas 2 milhões de pessoas (1 milhão a menos do que em 1970).
Os bispos anglicanos do mundo inteiro se reúnem a cada dez anos em Canterbury, na Inglaterra, para a tradicional Conferência de Lambeth. Neste ano, centenas de bispos alinhados aos conservadores (entre eles, representantes sul-americanos) decidiram boicotar o evento, que terminou no último dia 3, convocando uma conferência alternativa, em Jerusalém, em junho.
O principal pivô desse processo, que corre o risco de se encaminhar para o cisma da Igreja Anglicana, a terceira maior denominação cristã do mundo, com 77 milhões de membros, foi a ordenação, em 2003, do bispo Gene Robinson, da Igreja Episcopal de New Hampshire, um homem divorciado que vivia oficialmente com outro homem.
Reação conservadora
A Igreja Episcopal sempre foi uma das mais liberais entre as denominações do protestantismo tradicional nos EUA. Ligada à comunidade anglicana internacional, que tem no arcebispo de Canterbury sua autoridade máxima, ela está por sua vez submetida à autoridade de uma presidência nacional --cargo que é ocupado desde novembro, e pela primeira vez na história da Igreja Anglicana, por uma mulher, a bispa Katherine Schori.
Dentro desse sistema federativo, as decisões de cada congregação são tomadas de acordo com o voto dos seus membros. Com isso, a Igreja Episcopal acabou se tornando uma das mais democráticas dos EUA, na qual conviviam e se debatiam pontos de vista divergentes, sem que houvesse necessidade de desmembramento, como no caso do aborto. Nos anos 70, a igreja passou a ordenar mulheres e, nos anos 90, gays.
Em desacordo com a progressiva liberalização, a liderança de algumas congregações (cerca de 200, segundo avaliação dos próprios conservadores; não mais do que 35, num total de 7.000 igrejas, segundo o Serviço de Notícias Episcopal) buscou o apoio de bispos conservadores africanos.
A Nigéria, por exemplo, um país violentamente cindido entre cristãos e muçulmanos (e, por isso mesmo, visto por muitos conservadores no Ocidente como um bastião na cruzada cristã contra o fundamentalismo islâmico), conta hoje com uma população de 17 milhões de anglicanos, a maior comunidade anglicana do mundo, sob a liderança do arcebispo Peter Akinola, eminente porta-voz contra os direitos homossexuais na África.
Desrespeitando as regras da Igreja que circunscrevem a autoridade eclesiástica a regiões geográficas, Akinola concedeu ao reverendo Martyn Minns, um pastor do Estado da Virgínia, o título de bispo pela igreja da Nigéria, com o objetivo de estabelecer uma autoridade local a serviço da dissidência conservadora nos EUA. Minns e Gene Robinson foram os únicos bispos não convidados por Rowan Williams, arcebispo de Canterbury, para a conferência de Lambeth deste ano.
O caso da igreja de Falls Church é emblemático, porque também envolve a disputa legal pela propriedade, um sítio histórico avaliado em alguns milhões de dólares.
Medo
Quando 90% da congregação decidiu se afastar da Igreja Episcopal e se filiar à conservadora Cana (Sínodo dos Anglicanos na América do Norte), presidida à distância por Akinola, recorreram a uma lei específica do Estado da Virgínia (criada no século 19 para resolver o dilema de paróquias que divergiam quanto ao fim da escravidão) que garante o direito de propriedade à maioria da congregação em desacordo.
A constitucionalidade da lei foi confirmada em juízo no final de junho. A Igreja Episcopal vai apelar e, dependendo do resultado, é possível que tente chegar até a Suprema Corte.
Enquanto isso, os 10% que votaram pela permanência dentro da Igreja Episcopal se reúnem do outro lado da rua, numa pequena sala emprestada pela Igreja Presbiteriana, onde os cultos dominicais são celebrados pelo reverendo Michael Pipkin, ex-capelão de um hospital da Marinha, convocado em regime de urgência pela diocese: "As coisas estão muito tensas com os amigos do outro lado da rua. A rigor, eles estão ocupando a nossa propriedade. Não sei por que, eles estão com muito medo. E nós também", diz o reverendo.
À primeira vista, pode parecer estranho que os gays queiram participar de uma doutrina que os condena (muitas igrejas protestantes tradicionais, como a Falls Church, se assemelham cada vez mais às evangélicas).
Mas é preciso notar que, nos EUA, as igrejas estão integradas de tal forma à vida comunitária (tanto quanto a escola, o clube, o trabalho e a universidade) que pertencer a uma paróquia passa a ser quase uma questão de direitos civis --e que, no fundo, os membros da Igreja Episcopal estão lutando pela sobrevivência do espírito democrático no qual se fundava a sua denominação.
"A questão é como interpretamos a Bíblia. Para nós, não é preto no branco. Tentamos levar em conta a realidade. Há coisas que não podem ser tomadas ao pé da letra nas Escrituras. A Bíblia é muito clara sobre o divórcio e entretanto aprendemos a lidar com isso. Tentamos lidar com a realidade presente e adaptá-la à Bíblia. Para os ortodoxos, a Bíblia tem uma autoridade autônoma sobre a sexualidade. Eles interpretam Deus pela Bíblia e devia ser o contrário: a Bíblia é que deveria ser interpretada segundo Deus", diz Pipkin.
Cruzada
O democrata Michael Gardner, casado com a prefeita de Falls Church, Robin Gardner, mantém um blog com informações atualizadas sobre o processo judicial. "Gente da administração Bush foi recrutada para transformar a igreja de Falls Church. O ideólogo evangélico Michael Gerson, assessor de Bush e colunista do 'Washington Post', era membro da igreja. A perspectiva evangélica tem como propósito criar uma resposta cristã ao extremismo islâmico. A Igreja Episcopal não tem nada a ver com isso. É uma base muito mais comunitária, de congregação. É o contrário das religiões missionárias evangélicas", afirma.
A cruzada missionária à qual alude Gardner encontra numa megaigreja a poucos quilômetros dali, em outro subúrbio de Washington, uma das suas representações mais elaboradas. A McLean Bible, com mais de 10 mil membros comandados pelo pastor Lon Solomon, um judeu convertido ao cristianismo, próximo de George W. Bush e membro da organização Judeus por Jesus, mantém laços tanto com republicanos ilustres, como o promotor Kenneth Starr, quanto com Joel Rosenberg, que, além de autor de best-sellers apocalípticos sobre o Oriente Médio e a guerra santa, foi assessor de Benjamin Netanyahu e idealizador do Joshua Fund, uma organização evangélica de apoio a Israel.
Os livros de Rosenberg são vendidos na livraria da igreja, ao lado de edições da Bíblia com capa de camuflagem, que os fiéis podem comprar e enviar aos soldados no Iraque com uma dedicatória.
Um mundo que, em princípio, não tem nada a ver com os 10%, em Falls Church, que optaram por permanecer na Igreja Episcopal e hoje assistem ao serviço de domingo numa sala emprestada do outro lado da rua, à espera de uma solução improvável. O voto os pegou de surpresa. Um ano e meio depois, ainda parecem estar em estado de choque diante do que avaliam ter sido um golpe de Estado.
"Não houve nenhuma discussão. As pessoas se sentiam intimidadas. Quando nos demos conta, já era tarde. Quase choramos. As famílias que tomaram a igreja não são episcopais; são batistas, evangélicas. A Igreja Episcopal representa tudo o que os EUA são", reage inconformada Robin Fetsch, que fazia parte da congregação de Falls Church desde 1980. E eu me controlo, por simpatia e compaixão, para não responder: "Nem tudo".
Religião da América
EM MEIO À GUERRA DO IRAQUE E O MEDO DA RECESSÃO, NOVAS GERAÇÕES DO PAÍS, QUE TEM 78,4% DE CRISTÃOS, SE DESILUDEM COM DISCURSO FUNDAMENTALISTA E ABREM ESPAÇO PARA TEMAS COMO ABORTO E CASAMENTO GAY
Alex Brandon - 20.mar.08/Associated Press![]() |
O s norte-americanos podem imaginar um negro ou uma mulher como candidatos à Presidência do seu país, mas não um ateu.
Em sua ascensão meteórica rumo ao pináculo da política americana, o candidato democrata Barack Obama teve de abandonar o passado agnóstico, associando-se a uma das igrejas mais radicais e politicamente engajadas dos bairros negros de Chicago, a Trinity United Church of Christ [Igreja Unida de Cristo Trindade]- mas só até quando essa radicalidade passou a comprometer seus planos políticos.
Os EUA são o maior mercado livre de religiões do mundo.
Durante duas semanas de junho, num percurso que foi do Meio-Oeste ao Texas, a Folha visitou as maiores igrejas e personagens não muito católicos, procurando esboçar um recorte necessariamente incompleto do universo muito diversificado do cristianismo americano, cujo coro promete se fazer ouvir nas eleições presidenciais de 4 de novembro.
Os EUA são um país 78,4% cristão. Segundo dados de um vasto levantamento divulgado neste ano pelo Fórum Pew [leia na pág. 7] -projeto que se ocupa de religião e sociedade dentro de um dos institutos de pesquisa mais respeitados do país-, evangélicos e não-religiosos são os grupos que mais crescem enquanto os protestantes tradicionais moderados, muitos deles ligados historicamente ao movimento dos direitos civis, decrescem.
As conseqüências políticas dessa polarização ainda estão por ser avaliadas, mas a luta pelo voto evangélico já é uma das principais preocupações tanto entre estrategistas democratas como entre republicanos.
Dividir os evangélicos
Nas últimas duas eleições, religiosos conservadores e fundamentalistas se mobilizaram contra o aborto e o casamento homossexual e conseguiram levar às urnas gente que a princípio não votaria, garantindo a vitória a George W. Bush.
Agora, a relativa moderação do discurso de algumas das maiores organizações evangélicas norte-americanas, em meio à recessão econômica, aos resultados da Guerra do Iraque e à desilusão das gerações mais jovens com o discurso fundamentalista, abre a possibilidade de uma nova perspectiva.
Ontem, pela primeira vez desde o início da campanha, Obama e o candidato republicano John McCain participaram juntos de um encontro público, organizado pelo pastor Rick Warren, líder da quarta maior igreja dos EUA, a Saddleback, na Califórnia -o pastor esteve recentemente em São Paulo, divulgando sua igreja e seu método.
Os votos evangélicos (cerca de um quarto da população) são tradicionalmente republicanos, mas Obama quer se aproveitar da insatisfação com o governo Bush e da pouca empatia entre McCain os religiosos conservadores para -já que não pode conquistá-los em massa- ao menos tentar dividi-los.
Chicago: Tragicomédia da fé
Enquanto as outras igrejas pregam a obediência, a Trinity aprendeu a fazer o elogio da rebeldia, em reação à segregação
DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
São quase 11h e a Trinity United Church of Christ, no South Side de Chicago, está cercada por vans e câmeras das principais redes de TV americanas desde as 8h.
É o primeiro domingo depois de Barack Obama ter anunciado seu rompimento formal com o reverendo Jeremiah Wright Jr. e com a igreja onde se casou e com a qual mantinha há anos vínculos estreitos, tanto religiosos como ideológicos.
A Trinity é conhecida por pregar a teologia da libertação negra, uma versão radical, engajada e minoritária de cristianismo, que reivindica elementos das tradições africanas.
Pouco antes das 11h, centenas de pessoas convergem para o prédio hexagonal na esquina da rua 95 com a South Eggleston. Algumas mulheres usam chapéu e vestido longo. A igreja está lotada. E, fora um ou outro convidado e o punhado de jornalistas que acabará confinado comigo numa fileira do mezanino, sob a guarda inclemente de uma voluntária devota, todos são negros.
As TVs não podem entrar, e os congregantes parecem ter sido instruídos a não falar com a imprensa. "Depois de tudo, você queria o quê?", me pergunta a assessora de imprensa Donna Miller, já desconversando, antes de me direcionar ao curral de jornalistas -cinco ou seis que se entreolham em silêncio, constrangidos, na esperança da aparição improvável do principal protagonista, hoje recolhido ao silêncio.
O reverendo Jeremiah Wright Jr. se aposentou em fevereiro, aos 66 anos, depois de 36 anos de ativismo social, comandando uma congregação negra que passou de menos de cem membros para 8.000 sob a sua liderança -a Trinity é a maior igreja dentro da denominação protestante de maioria branca United Church of Christ, conhecida por ser uma das mais liberais do país.
Durante o escândalo, detonado por suas declarações polêmicas, em especial sobre o 11 de Setembro, Wright ainda tentou retomar as rédeas e reagir aos ataques da mídia, o que só fez piorar sua imagem pública num país acostumado a ouvir pastores brancos fanáticos dizerem coisas bem mais graves e seguirem incólumes.
É o primeiro domingo em que o novo pastor, o reverendo Otis Moss 3º, 37, empossado em fevereiro, ocupará a cadeira antes reservada a Wright no centro da igreja.
Vestido com túnica branca com pregas coloridas, que combinam com os motivos africanos dos trajes dos pastores associados ao redor, Moss finalmente se refere ao trauma, lendo uma "Declaração de Interdependência", na qual presta homenagem ao pastor Wright, sem mencioná-lo pelo nome.
Nada é direto. Moss já não se refere à "crucificação do reverendo Wright". O texto cita "Entre Quatro Paredes", de Sartre, para falar da "estranha tragicomédia grega" em que a comunidade da Trinity se viu envolvida nos últimos meses.
"Somos um povo humilhado, e as feridas do nosso encontro com a história deixaram cicatrizes na nossa alma. A Bíblia é clara: somos pressionados por todos os lados, mas não fomos destruídos!"
É essa declaração de resistência e superação, ao mesmo tempo em que agradecem ao Senhor com uma celebração de êxtase coletivo, que dá o tom trágico, desesperado e heróico do culto.
Aqui, Deus foi transformado em estratégia de luta e mobilização social. Enquanto as outras igrejas pregam a obediência, a Trinity aprendeu a fazer o elogio da rebeldia, em reação à segregação.
Daí a catástrofe de constatarem o óbvio e o irreversível: que Obama só tinha alguma chance de se eleger presidente de um país como os EUA depois de se desvencilhar do reverendo Wright e de sua igreja.
O coro é formado por uma centena de pessoas vestidas de branco, numa arquibancada ao fundo, atrás do pastor e dos músicos, ao lado de um grande vitral colorido, que representa cenas egípcias e bíblicas.
A igreja inteira canta e dança sem parar, ao som de "spirituals", "freedom songs", folk e até jazz, por quase três horas seguidas. O mezanino sacode.
Sombra
De vez em quando, mulheres gritam e agradecem ao Senhor. A voluntária que toma conta dos jornalistas se vira para mim e diz: "Escreva aí no seu jornal que é uma dança feliz".
Estão todos tomados pelo êxtase, mas não dá para saber quanto do espetáculo é uma encenação de alegria, tolerância e pensamentos positivos, montada especialmente para a mídia para abafar o escândalo.
A igreja parece vir abaixo, os pastores pingam de suor, as pessoas dançam, cantam e batem palmas. Mulheres tremem na platéia, numa espécie de transe, e são reconfortadas por vizinhos e vizinhas. Agradecem ao Senhor e choram.
A incorporação de formas do misticismo africano como modo de resgate cultural das origens é deliberada e bem-vinda, ao contrário das congregações negras mais conservadoras, como a evangélica The Potter's House, em Dallas, no Texas, a maior igreja negra dos EUA -e a décima na contagem absoluta, com 17 mil membros.
No South Side de Chicago, o reverendo Moss termina seu sermão de domingo invocando grandes homens que permaneceram à sombra da história, às margens da grandeza, sempre fiéis a sua visão.
É difícil não ver aí uma referência à própria relação entre o reverendo Wright e Barack Obama.
Uma referência que traduz a visão da igreja: a tragicomédia de um pai espiritual que, por sua radicalidade inconveniente, é obrigado a se recolher à sombra para que o filho possa vencer num mundo injusto.
Chicago: A igreja PowerPoint
DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
Além deste jornalista brasileiro fazendo o périplo das principais igrejas de um país cristão que vem a ser também o mais poderoso, quem mais se daria ao trabalho de passar duas horas num engarrafamento monstruoso à saída de Chicago, numa tarde de sábado ensolarada, para assistir a um culto sobre o tema "Você Já Morreu?", numa megaigreja evangélica, um "bunker" no meio de bosques, lagos e pradarias, entre sedes de grandes empresas, condomínios de luxo, shopping centers e campos de golfe?
A resposta veio pouco depois de eu passar pelo Medieval Times, um restaurante temático de beira de estrada, construído à imagem de um castelo espanhol, onde os convivas, vestidos a caráter, podem acompanhar um verdadeiro torneio de cavaleiros com lanças e armaduras enquanto jantam.
Logo comecei a reconhecer os carros das famílias que se dirigiam à igreja, utilitários esportivos que, ao contrário de mim, se encaminhavam decididos para a sede da Willow Creek, como se fossem assistir a um espetáculo imperdível ou à pré-estréia do último "blockbuster".
Um rebanho atendendo à convocação do pastor Bill Hybels, um dos 25 evangélicos mais influentes dos EUA, segundo a revista "Time", assessor espiritual do presidente Bill Clinton nos anos 90, quando sua igreja era a maior do país (hoje é a segunda).
À entrada da propriedade, guardas sorridentes indicam com boas-vindas e o sinal de paz e amor o caminho para o rebanho de veículos.
Os apitos das trancas dos carros ressoam enquanto famílias e casais de mãos dadas e de todas as idades descem e se cumprimentam a caminho do hall de entrada, que, em sua assepsia, lembra o lobby de um hotel de luxo ou de um mega-hospital para ricos.
Luxo
A maioria é branca, mas também é notável a presença de asiáticos, uma curiosa recorrência nesse tipo de igreja nos EUA, como se ali buscassem outra possibilidade de integração.
A congregação de Willow Creek vem trabalhando nos últimos anos com questões sociais, como a reconciliação racial na periferia de Chicago, a Aids e a pobreza na África.
Ainda assim, antes do início do culto, quando uma família negra -a única visivelmente pobre dentro do imenso auditório- procura pelos corredores um lugar para se sentar (e provavelmente algum tipo de redenção), os outros fiéis fingem não vê-la.
É uma família extraterrestre naquele mundo asséptico. Mas basta o pai, vestindo a camisa do seu time de basquete, passar com a mulher e as duas meninas pequenas, em vestidinhos singelos, para serem acompanhados por olhares dissimulados de estranhamento. O orçamento da igreja no período (revelado no verso do programa do culto) está em US$ 11,5 milhões. Até agora, foram arrecadados US$ 10,9 milhões.
Ao contrário do que estamos habituados a ver no Brasil, a transparência é total, e ninguém precisa do dízimo dos pobres. Cada vez mais, megaigrejas como a Willow Creek, beneficiando-se da contribuição de grandes empresas e executivos, se engajam em ações sociais para a erradicação da pobreza -até como forma alternativa e indireta de combate ao aborto.
Assim como Rick Warren e sua igreja Saddleback (Califórnia), a quarta maior dos EUA e palco do encontro público que reuniu ontem, pela primeira vez desde o início da campanha, os candidatos democrata e republicano, Hybels serve de modelo para o novo evangelismo dos EUA.
É mais empresarial, mais moderado e distante do fundamentalismo que marcou o início do governo Bush e que ainda ecoa na voz de um punhado de influentes pastores apocalípticos, como John Hagee, em San Antonio (Texas) e Rod Parsley, em Columbus (Ohio). Ambos ofereceram seu apoio a John McCain e foram rechaçados pela campanha do senador depois de alguns de seus sermões mais incendiários e comprometedores terem vindo a público.
Família Dó-Ré-Mi
Não é disso que Hybels lhes fala com sua voz chorosa, pontuada por acordes musicais. O pastor fundou sua igreja, no início dos anos 1970, a partir da combinação de música pop, teatro colegial e Bíblia, dentro de um espírito que ainda hoje faz lembrar um seriado da época: "A Família Dó-Ré-Mi".
A esse espírito pop, universitário e familiar, Hybels acrescentou técnicas empresariais de PowerPoint, desenvolvendo nos seus 32 anos de sacerdócio um método de treinamento para conversão de indecisos e desgarrados, refratários à imagem da cruz (aqui substituída por um fundo de panos mais próximo de um cenário de Daniela Thomas do que de uma igreja).
O método, vendido pela internet, forma anualmente dezenas de milhares de pastores de uma rede de 12 mil igrejas.
Quando chega a hora do sermão, Hybels assume o palco e exorta o público a morrer (deixar para trás a descrença, as mentiras, os interesses próprios, a autocomplacência e as tentações) para renascer em Cristo. Usa a metáfora da sementinha. Morrer para renascer. Fica explicado o sentido do título do culto.
O Novo Testamento é desmembrado em telas de PowerPoint. Hybels faz o público repetir, como refrão, as palavras "morrer" e "morte" sempre que aparecem na tela. Inúmeras vezes. "Alguns de vocês ainda não morreram o bastante."
A forma do discurso pode ser moderada, mas esta é uma igreja que, no coração do Meio-Oeste, exorta a matar nossos desejos. E o mais interessante é que, pela assepsia e transparência, é como se a própria igreja e a sociedade americana estivessem fundidas em uma coisa só, plasmadas, indiferenciadas.
A igreja é a escola, a universidade, o clube de campo, a creche, os grupos de estudo, os encontros sociais, as viagens missionárias, a colônia de férias, o entretenimento de fim de semana. Não se trata mais de barbaridades proferidas por um fanático, mas de um discurso brando, que pode fazer você cantar coisas estranhas, de olhos fechados, balançando o corpo.
Nova York: Uma comediante mórmon
"A fé não faz sentido, mas esse é o princípio da fé; nenhuma religião, no fundo, faz sentido"
DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
Como todo aspirante a ator que se muda para Nova York decidido a estudar teatro, Elna Baker, nascida em Seattle, fez um pouco de tudo (e chegou a recepcionista do restaurante Nobu, um dos japoneses mais celebrados da cidade) antes de poder sobreviver do trabalho de escritora e comediante.
Seu primeiro emprego de atriz, depois de se formar pela Escola de Artes Dramáticas da Universidade de Nova York, foi no papel de enfermeira das incubadoras de bonecas "recém-nascidas" (produzidas, segundo consta, com material desenvolvido pela Nasa, para parecerem reais) da tradicional loja de brinquedos F.A.O. Schwarz, na Quinta Avenida.
Cabia a Elna empregar seu talento para manter a ilusão de meninas de sete anos que, ao entrar na loja acompanhadas pelas mães, passavam a agir como mulheres adultas (mas não completamente) no processo de adoção de crianças.
"Babies Buying Babies" ("Bebês Comprando Bebês"), o monólogo em que Elna Baker narra sua experiência de vendedora-demonstradora no berçário da loja F.A.O. Schwarz (e que pode ser acessado pela internet, no programa "This American Life", da Rádio Pública Nacional, ou no site da própria autora) expõe os preconceitos, a psicologia e as expectativas da vida americana com um sarcasmo improvável na boca de uma mórmon praticante.
Elna Baker é o que o leitor leigo definiria como um paradoxo vivo: uma comediante mórmon. Uma definição da qual ela própria tenta se livrar, em vão.
Os mórmons não bebem em hipótese nenhuma; a rigor, devem se casar virgens, cedo e entre mórmons; costumam ter muitos filhos (pelo menos, para os padrões americanos) e seguir códigos de conduta bastante estritos, ditados e mantidos por um profeta vivo, escolhido dentre um grupo seleto de apóstolos.
Os mórmons também têm o costume peculiar de batizar (e portanto converter) os mortos -mesmo aqueles que em vida não comungavam na sua fé.
"Tecnicamente, se o profeta diz que você deve fazer uma coisa, mesmo se for uma coisa realmente ridícula, você terá que seguir o que ele disse. Por outro lado, uma das idéias fundamentais do mormonismo é a revelação pessoal. Toda vez que alguém lhe diz alguma coisa, é sua responsabilidade perguntar a Deus sobre a verdade daquilo. E é esse pensamento que o ajudará a entender a resposta. Se, durante a oração, você não concordar com o que lhe foi dito, é porque aquilo não é verdadeiro. É claro que sempre fica a dúvida: será que estou dizendo para mim mesma o que eu quero ouvir? Mas há esse ideal da reflexão pessoal", diz.
Humor reflexivo
Muito do humor de suas apresentações (que podem lembrar Woody Allen e David Sedaris) vem das agruras dessa comediante, mórmon e solteira (e portanto, em princípio, virgem), em busca do homem ideal, em Nova York -cidade que, em mais de um aspecto, é a antítese do mormonismo.
Apesar de ter crescido 50% nos últimos dez anos, a população local de mórmons não passa de 5.000.
O título de seu primeiro livro, a ser publicado em 2009 pela Penguin, que o disputou com duas outras editoras, diz muito: "The New York Regional Mormon Singles Halloween Dance" ("O Baile de Halloween dos Solteiros da Regional Mórmon de Nova York").
"É uma história de formação sobre ser mórmon em Nova York. E é uma comédia", esclarece a autora, que, contrariando os ideais da igreja, continua solteira aos 26 anos, já namorou um ateu e hoje está saindo com um muçulmano iraniano.
Num vídeo disponível no YouTube -que faz referência ao baile de Halloween do título e à fantasia de biscoito chinês que ela confeccionou especialmente para a ocasião-, Elna diz a uma platéia às gargalhadas que, em Nova York, não é possível manter um namorado por mais de quatro semanas sem transar.
Há cerca de 12 milhões de mórmons no mundo. Nos EUA, representam apenas 1,7% da população. No Brasil, chegam a mais de 1 milhão, segundo dados da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Sentido da fé
É difícil imaginar uma pessoa que escreve com tanta auto-ironia e que nunca tenha parado para questionar a sua fé.
"A fé não faz sentido, mas esse é o princípio da fé; nenhuma religião, no fundo, faz sentido. É claro que tenho muitos momentos de dúvida. Você nunca tem garantia absoluta da fé. Você tem que lutar para mantê-la no centro da sua vida. E acaba sendo definido por ela", diz.
"Essa é uma das razões pelas quais também me debato com a fé. Não quero ser definida por ela, quero ser apenas quem sou, mas reconhecendo ao mesmo tempo que, em muitos aspectos, essa fé me deu forma. E que ela também me define."
É claro que essa contradição só pode se resolver se a religião for vivida mais como questão de foro íntimo, entre o indivíduo e Deus, do que como submissão a uma cultura e a um espaço público.
"Fui criada segundo os preceitos da religião, estudando o "Livro de Mórmon" e a Bíblia. No meu trabalho, essa crença é central para minha identidade. É algo de que me beneficio, algo que me ajuda, que me desafia a fazer as escolhas com as quais no final das contas me sinto bem. Quando trabalho, sempre tento ser fiel a essa identidade, seja lá o que ela for."
As mesmas contradições que podem levar uma pessoa a se afastar da religião mantêm outras dentro da igreja. Neil LaBute, um dos dramaturgos americanos mais originais em atividade, acabou abandonando a Igreja Mórmon.
Elna não pensa nisso. Na universidade, muita gente achava que ela não agüentaria por muito tempo em Nova York sendo mórmon e fazendo o que fazia em teatro.
Achavam que acabaria cedendo, optando por uma coisa ou outra. "E, depois de três anos, vendo que eu continuava firme, sendo eu mesma, as pessoas passaram a gostar disso. Nas festas, passaram a me apresentar como uma espécie de troféu: a amiga mórmon. Ficavam realmente orgulhosas por eu ser mórmon", afirma.
Taylors e Houston: Sul batista
O jovem pastor destila sarcasmo contra a arrogância do Estado laico
DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
Os batistas são o maior grupo protestante norte-americano. Juntando os grupos batistas evangélicos, tradicionais e "historicamente negros" (de acordo com a classificação do Fórum Pew), representam um terço de todos os protestantes nos EUA e quase um quinto da população do país.
Entre os batistas evangélicos, a Convenção Batista do Sul, uma federação que reúne milhares de igrejas, formando a maior denominação religiosa nos EUA depois da Igreja Católica, conta hoje com 6,7% da população americana, mais de 16 milhões de pessoas.
Criada em 1845, a convenção é o rosto da religião no sul. Na Guerra de Secessão, seus mártires foram os oficiais e soldados que caíram na luta contra o fim da escravidão. Só em 1995 a convenção repudiou formalmente o passado escravagista.
Os batistas do sul são uma parcela muito conservadora e poderosa da sociedade americana. E não é à toa que, em ano de eleição, o país esteja de olho neles. Tiveram um papel determinante nas duas vitórias de Bush e hoje, embora menos entusiasmados pelo "liberal" McCain, continuam em geral fiéis ao Partido Republicano.
Num livro seminal, publicado em 1992 ("The American Religion - The Emergence of the Post-Christian Nation", A Religião Americana - A Emergência da Nação Pós-Cristã), o crítico literário Harold Bloom defendia a tese de que o cristianismo em solo americano é na verdade uma religião gnóstica, cuja característica fundamental é o contato direto entre o indivíduo e a divindade.
Nesse sentido, o batista teria sido, a certa altura, um antifundamentalista por excelência, uma vez que um dos princípios da doutrina, na origem, era a autonomia individual na interpretação da Bíblia, a luz interior, a competência da alma no contato direto com Jesus ressurrecto.
No início, isso serviu para a defesa da liberdade contra a doutrina católica. O batista deveria desconfiar, por princípio, de todos os credos, inclusive do seu. Mas essa afirmação de liberdade individual pelo paradoxo de uma "religião sem credo" era ao mesmo tempo sua força e sua fraqueza.
Religião sem política
Na ausência de regras doutrinárias que dessem unidade ao todo, a Bíblia passou a ser "menos lida que pregada, menos interpretada que empunhada e brandida"; passou a ser inquestionável, mesmo quando desconhecida. Em 2006, um presidente "moderado" foi eleito graças à mobilização de pastores dissidentes, em blogs.
Frank Page, pastor de uma megacongregação em Taylors, Carolina do Sul, trabalhou durante dois anos para unir a convenção em torno de questões menos polêmicas e menos belicosas do que o aborto, o casamento homossexual e a pesquisa com células-tronco, procurando concentrar-se em temas mais consensuais.
"Se há uma mudança, é no sentido de enveredar talvez para uma denominação mais pacífica, menos abrasiva. Mais flexível em termos sociais. Não vamos abrir mão daquilo em que acreditamos, mas podemos ser mais holísticos. Minha eleição mostrou que a convenção estava pronta para uma nova direção, teologicamente conservadora, mas muito mais relevante para a cultura de hoje", diz Page, que conhece o Brasil e já esteve várias vezes em Fortaleza (CE), onde sua igreja mantém um orfanato.
Desde 1926 a Igreja Batista do Sul não sofria uma queda no número de membros, que passaram de 16,3 milhões para 16,27, em 2007.
No Meio-Oeste, jovens pastores já começam a lançar mão de uma evangelização mais condizente com as preocupações das novas gerações, e algumas igrejas mais marcadamente fundamentalistas fecharam suas portas por falta de coro.
Seguindo a tendência das maiores igrejas evangélicas americanas, Page tentou voltar a atenção dos batistas para questões como a Aids, a pobreza e o ambientalismo.
"Quis mostrar uma imagem mais positiva de quem somos. Por muito tempo, fomos conhecidos pelo que combatíamos, mais do que por aquilo que defendíamos", diz.
Mas a eleição, em junho, de um novo presidente para a convenção sinaliza que a vocação conservadora continua ativa.
Johnny Hunt, descendente de índios e pastor de uma megaigreja batista no Estado da Geórgia, embora diga que pretende seguir a política de seu antecessor -mantendo o foco menos em questões políticas controversas e mais em assuntos religiosos-, é basicamente um anti-reformista.
Sermão e Tarantino
A Segunda Igreja Batista, em Houston, é a maior igreja batista dos EUA e a terceira maior do país, em termos absolutos, com mais de 23 mil membros.
Num domingo de junho, jovens casais e famílias a caminho do culto das 11h tomam estacionamento, jardins e corredores do complexo de prédios em que a igreja está inserida, à imagem de uma catedral.
No sermão pontuado por melodias pop e ritmos de rock, o jovem pastor vai dizer, com cores mais apropriadas ao seu tempo, as mesmas coisas que seu pai, horas antes, acompanhado de orquestra.
Irá falar da pátria e dos valores da família. E, nas entrelinhas, entre menções a filmes de Tarantino, vai aludir à "ciência" associada ao charlatanismo de um neurologista que criou um site onde, pagando, as pessoas podem mandar mensagens para os mortos.
Irá destilar o mesmo sarcasmo contra a vaidade e a arrogância do Estado laico (como se alguma coisa pudesse existir em desobediência à vontade de Deus). E é aí que se percebe que o conservadorismo não tem nada a ver com idade.
Afinal, o que esses jovens reivindicam é o direito de poderem ser ao mesmo tempo conservadores e consumidores cosmopolitas. São ricos e bem-formados, assistem aos filmes de Tarantino, vestem Prada e ouvem rock. E querem ver o mundo governado por Jesus.
Nova Jersey: Perseguição aos ateus
"Se você disser que é ateu, pode até perder o emprego; se não disser nada, ninguém o amola"
DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
Um dos resultados mais surpreendentes do relatório sobre o cenário religioso americano divulgado pelo Fórum Pew é o crescimento dos chamados "não-afiliados" -ateus, agnósticos e pessoas que não pertencem a nenhuma igreja ou religião organizada.
Hoje, eles representam 16,1% da população (25% das pessoas entre 18 e 29 anos) e começam a se impor como uma força política incontornável num país de maioria crente.
Dados do mesmo Fórum Pew revelam, em contrapartida, que o eleitor americano não se sente à vontade para apoiar um candidato se ele for ateu (61%), muçulmano (45%) ou mórmon (25%).
Antes da contagem das urnas, no entanto, fica difícil saber quanto essa resposta esconde de preconceitos latentes e mais raramente assumidos em público.
Por exemplo: 15% dizem que não votariam em um candidato hispânico, 12% não votariam em uma mulher e apenas 6% não votariam em um negro -o que é espantoso num país historicamente dividido pela questão racial. Os americanos podem ter pudor de assumir o racismo, mas certamente não hesitam em expressar o horror que sentem pelos ateus.
"Os ateus são o grupo mais odiado nos EUA. Nosso principal objetivo é aumentar a tolerância em relação a eles e preservar a separação entre igreja e Estado", diz David Silverman, diretor de comunicações da Ateus Americanos, uma organização de 3.500 membros, baseada em Nova Jersey, que defende as liberdades civis e o Estado laico.
Atualmente, a Ateus Americanos se mobiliza contra a reconstrução de igrejas com dinheiro público, em Detroit, e está processando o Estado de Utah por conta das cruzes instaladas permanentemente em estradas.
A declaração de Silverman ecoa o que Sam Harris diz em seu panfleto "Carta a uma Nação Cristã" [Cia. das Letras], best-seller de 2007: "Os ateus são a minoria mais vilipendiada dos EUA".
Harris, por sua vez, é um dos mais inflamados ensaístas ateus que despontaram ao longo do governo Bush. E é provável que boa parte do seu sucesso se deva aos próprios religiosos, interessados em conhecer as armas do inimigo.
As de Harris são pesadas. Para ele, não há meio-termo: "O problema com a religião -assim como com o nazismo, com o stalinismo ou com qualquer outra mitologia totalitária- é o próprio dogma. (...) Ou a Bíblia é só um livro comum, escrito por mortais, ou não é. (...) E, se a Bíblia for um livro comum e Cristo, um homem comum, a doutrina básica do cristianismo é falsa".
A Ateus Americanos foi fundada no Texas, em 1963, por Madalyn Murray O'Hair, apontada pela revista "Life", no ano seguinte, como "a mulher mais odiada da América".
Em 1959, Murray ganhou na Suprema Corte uma ação contra a reza obrigatória nas escolas públicas. Havia entrado com a ação em defesa dos direitos do filho, William Murray, que se recusava a participar do catecismo escolar.
Conversão
Em 1995, ela foi seqüestrada do escritório da organização, supostamente por um funcionário, e violentamente assassinada, junto com o outro filho e a neta, filha de William.
Depois da morte da mãe, da filha e do irmão, William, em nome de quem Madalyn tinha ido até a Suprema Corte para defender a separação entre igreja e Estado, se tornou um pregador batista.
Hoje, participa de programas evangélicos na televisão, dizendo o diabo contra a mãe.
Segundo Kenneth Bronstein, que dirige os Ateus da Cidade de Nova York, associação filiada à Ateus Americanos, uma das maiores dificuldades é fazer os ateus saírem do armário.
"O número de ateus nos EUA é maior que o de judeus, hindus e de vários outros grupos. O problema é que não se organizam e, portanto, não têm nenhum poder. Se você disser que é ateu, pode até perder o emprego. Se não disser nada, ninguém o amola. Você pode fazer uma analogia com os gays 20 anos atrás. Tinham medo de assumir que eram gays. Estamos no mesmo processo", afirma Bronstein.
"É um círculo vicioso. O ateu se sente só e se fecha, o que leva a mais ignorância e medo, o que só o faz se fechar ainda mais. Trabalhamos para que as pessoas saibam quem são os ateus, para que haja menos medo e, com sorte, esse ciclo termine. Os não-religiosos são um bloco político que deve ser ouvido e reconhecido. Vão continuar crescendo com o tempo, conforme os EUA se equipararem ao resto do mundo civilizado", diz Silverman.
Em 1954, durante a Guerra Fria, a igreja conseguiu incluir a referência a Deus no juramento à bandeira americana.
"Os religiosos nos EUA são muito fortes e estão tentando pôr a religião em toda parte. No governo, nas escolas... Como se já não bastasse o "in God we trust" [confiamos em Deus] nas cédulas de dólar. Depois vêm dizer que não somos patrióticos porque não fazemos o juramento à bandeira. Somos patrióticos, mas não vamos jurar por Deus", diz Bronstein.
Tulsa: O coração do televangelismo
Vi [no Rio] garotos abandonados nas ruas; eu chorei
DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
Tulsa, Oklahoma, é o centro do televangelismo norte-americano, a fivela do "cinturão da Bíblia" -alcunha atribuída ao conjunto de Estados do sul onde é marcante a presença de evangélicos conservadores.
É aqui que Oral Roberts, um dos ícones religiosos do país, fundou a sua universidade, em 1963, e concebeu, a partir de visões de Jesus Cristo, um grandioso complexo hospitalar.
Batizado de Cidade da Fé, sua vocação era unir medicina e preces. O complexo médico carismático foi inaugurado em 1981 e, em menos de dez anos, em meio a uma profunda crise financeira (e a despeito dos US$ 9 milhões arrecadados entre os fiéis, graças a uma campanha televisiva), teve de converter suas torres em prédios de escritório.
Em 2007, Richard Roberts, filho mais moço de Oral e principal herdeiro da igreja do pai, se viu envolvido num escândalo de malversação de verbas e foi obrigado a se demitir da presidência da universidade.
Oral Roberts ficou conhecido, a partir dos anos 40, por suas cruzadas pelo país, primeiro em tendas itinerantes e depois no rádio e na televisão.
Pregava a cura pelo toque -paralíticos largavam as muletas e saíam andando, mudos falavam, cegos passavam a ver. Exortava os telespectadores a aproximarem as mãos da tela do televisor em casa.
Gerou controvérsia quando passou a dizer que também ressuscitava mortos.
Carlton Pearson, 55, veio para Tulsa estudar na Universidade Oral Roberts, o maior sonho de sua família de quatro gerações de pentecostais negros e pobres de San Diego, na Califórnia. E logo se tornou o preferido de Roberts, que precisava de cantores negros em sua igreja.
"Eu era o filho negro de Oral", diz Pearson, com uma ponta de orgulho, em seu escritório no centro de Tulsa.
Durante anos, ele e Richard, que se preparava para herdar o império evangélico do pai, trabalharam juntos para a igreja, como irmãos: "Cantávamos, pregávamos e tirávamos o diabo do corpo das pessoas".
O talento de Pearson para o negócio vinha de longa data, desde que, aos 16 anos, expulsou o diabo do corpo da namorada: "Tínhamos jejuado e rezado juntos. E ela foi possuída. Depois, achei que era uma traidora. Mas, se acredita no diabo, do modo como fomos ensinados a crer, ele se manifesta".
O pastor herege
Pearson acabou alcançando projeção nacional como líder da maior igreja neopentecostal de Tulsa, a Higher Dimensions (Dimensões Superiores) -com 5.000 membros-, e organizador de uma concorrida conferência anual de 40 mil pastores evangélicos, antes de cair em desgraça e passar a ser chamado de herege por seus pares.
Sua heresia não foi de ordem financeira ou sexual, pecados que têm acometido evangélicos ilustres nos EUA, levando-os a perder não só a moral mas suas congregações.
É o caso célebre de Ted Haggard, que comandava a Associação Nacional de Evangélicos, com 30 milhões de membros, e que foi à televisão condenar Pearson, antes de cair ele mesmo em desgraça, em 2006.
Haggard, que também estudou na Universidade Oral Roberts antes de fundar a New Life Church (Igreja Vida Nova), em Colorado Springs, era um homem casado e pregava os valores da família contra o aborto e o casamento homossexual, até ser desmascarado como consumidor de metanfetaminas e cliente regular de um "acompanhante profissional".
O inferno não existe
"Acho que agora ele está tentando conseguir um diploma em psicologia", diz Pearson, cuja descida aos infernos teve início quando passou a dizer, para indignação e horror de seus colegas evangélicos, que o inferno não existe.
A iluminação veio em 1995, enquanto assistia a um programa sobre o genocídio em Ruanda, na TV:
"Somos nós que criamos o inferno. Vi tudo aquilo com meu filho pequeno sentada no colo. Ouvi a voz que eu achava ser de Deus, falando à minha alma, perguntando sobre meu filho, que engatinhava entre as minhas pernas: "O que esse menino pode fazer para você mandá-lo para o inferno, para ser torturado para sempre?". Nada, pensei. "E o que o leva a pensar que nós faríamos isso com ele?", disse a voz. Está na Bíblia, respondi. Comecei pelo inferno e acabei denunciando a Bíblia. Muito do que está na Bíblia é superstição, mito. Passei a pregar isso toda semana. Não dizia literalmente, preto no branco, mas já não idolatrava as Escrituras. Foi o que me pôs em apuros com os evangélicos."
Pearson se converteu ao que hoje ele chama de "evangelho da inclusão": o amor aos marginalizados, aos drogados, aos homossexuais, aos soropositivos etc. Mas foi só depois da eleição de Bush, em 2000, que ele próprio e seus pares começaram a entender as conseqüências do que estava dizendo. Afinal, se o inferno não existe e ninguém precisa ser salvo, para que servem as igrejas?
Os fiéis debandaram. No final, restavam 200 num auditório de 2.200 lugares. Em dezembro de 2005, Pearson foi obrigado a vender a igreja.
"A propriedade valia cerca de US$ 6 milhões. Ainda devíamos US$ 2,8 milhões de hipoteca. Renunciei ao nome. Perdi meu programa de TV, meus direitos intelectuais, meu seguro. Fiquei só com as calças."
Bispo de brinco
"Perdi meus cartões de crédito. Minha renda vinha de pregações e palestras. Ninguém me convidava para mais nada. Ted Haggard foi à TV dizer que, se me abandonaram, era o mercado, como um show do qual as pessoas não gostam. Há 1.600 denominações religiosas nos EUA. Se você não gosta do que é dito numa igreja, atravessa a rua e vai assistir ao serviço em outra. As pessoas são devotas do inferno. Têm um compromisso com o inferno. Então, quando tirei o diabo delas, ficaram indignadas e o queriam de volta", diz.
Pearson fundou imediatamente uma nova igreja (a New Dimensions, Novas Dimensões) para pregar seu "evangelho da inclusão".
Reinventou sua vocação pentecostal em meio ao universo das igrejas liberais americanas: "Ainda sou bispo, mas onde é que já se viu um bispo de brinco?", diz, às gargalhadas, apontando para a argola na orelha.
Hoje, já olha para trás com ironia. Mantém um escritório no 29º andar do segundo prédio mais alto do centro de Tulsa, com fotos dos filhos e da mulher sobre a mesa, de onde avista não apenas um punhado de igrejas de diferentes denominações, aos seus pés, mas também as torres da Cidade da Fé, ao longe: "Queria poder ver as coisas de cima", diz, rindo.
A comunidade judaica e os gays o acolheram na queda. E, desde então, passou a freqüentar os que antes condenava. "Eu costumava passar pela frente desta igreja dizendo "o diabo mora aí". E agora o diabo sou eu aqui", diz para uma platéia de 30 pessoas, durante o serviço de quarta-feira à noite, na Igreja Unitária Todas as Almas.
A igreja fica num dos bairros residenciais mais afluentes de Tulsa, construído com o dinheiro do petróleo, e é a maior congregação de uma das denominações religiosas mais heterodoxas do país, a ponto de não pregar a Bíblia.
"Eles já não eram racistas quando não era permitida a entrada de negros neste bairro depois das seis da tarde. Era esta igreja que o filho mais velho de Oral Roberts freqüentava quando se suicidou. Foi a única que o recebeu, porque ele era gay. Há muita hipocrisia na religião. Os fundamentalistas estão cheios de adúlteros, alcoólatras, fornicadores, drogados. Sabem disso e estão cansados de si mesmos. Os militantes antiaborto não fraquejam enquanto suas filhas não forem estupradas por um negro. Aí eles ficam a favor do aborto. Todo mundo é contra o aborto enquanto for conveniente", diz.
Pearson é republicano registrado desde a eleição de Ronald Reagan, em 1980. Fez campanha por Bush, em 2000, e foi recebido na Casa Branca.
Mas fica indignado quando lhe perguntam se faria o mesmo por McCain: "A América é muito orgulhosa para pôr na Casa Branca um homem que não consegue levantar o braço. Também não vai pôr ali um homem com sotaque. Nem um homem com aparência desagradável. Tampouco gosta de homens de óculos. É uma coisa psicológica. McCain não consegue apertar a mão das pessoas com o vigor de Obama".
Galinha morta
Falando em inferno, Pearson se lembra de uma visita ao Rio: "Vi garotos que formavam pequenas quadrilhas para roubar, abandonados nas ruas como cachorros. Eu chorei. E aí me levaram para visitar o Cristo [Redentor]. Me senti paralisado. O que nos leva a fazer isso uns aos outros? Lá de cima, via uma igreja a cada esquina".
"Uma catedral católica, uma igreja pentecostal e o fetichismo de uma galinha morta na qual eu tropecei ao entrar num banco. O que é que está acontecendo? Não há diferença entre a galinha morta e a catedral. É alimento para uma mentalidade fetichista de um Deus bravo que o matará se você não beijar os pés dele. Quero ver você publicar isso."
San Antonio: Catolicismo hermano
"A Igreja Católica faz esforço para chegar aos imigrantes, mas não sabe como; nessa área, os evangélicos são muito ativos"
DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
Ainda está escuro quando o padre Tony Vilano, 42, começa a celebrar a missa das 6h15 na catedral histórica de San Fernando, a mais antiga do país, em San Antonio, Texas.
Cerca de 20 pessoas assistem à missa bilíngüe na pequena igreja, fundada em 1731 por famílias vindas das Ilhas Canárias a convite do rei Filipe 5º, da Espanha. Dez são freiras.
É a primeira semana do padre Vilano como reitor da paróquia no centro histórico da cidade, uma espécie de parque temático do Velho Oeste, para turistas.
Vilano nasceu na Alemanha, filho de um oficial da Força Aérea dos EUA, e cresceu no sul do Texas. Os pais vêm da região da fronteira com o México. Antes de San Fernando, serviu em paróquias de cidades pequenas. "Nas montanhas, em Curville e em Charlotte, há mais gente que acabou de chegar do México, trabalhando em ranchos. Deve haver aqui também, mas há mais na área rural. Essa é a minha experiência. Eles vêm para a igreja quando estão passando necessidade, vêm em silêncio e rezam por suas famílias no México", afirma.
A Igreja Católica, embora continue sendo a maior denominação religiosa nos EUA, com 23,9% da população adulta (os protestantes representam 51,3%, dos quais 26,3% são evangélicos, mas divididos em uma grande variedade de denominações), foi também a que sofreu mais baixas (10% dos americanos são ex-católicos, segundo a pesquisa do Pew).
E as perdas só não são maiores porque acabam compensadas pelo fluxo de imigrantes da América Latina, principalmente mexicanos.
A maioria da população católica de San Antonio é de origem hispânica. São cerca de 1.600 famílias na congregação, segundo Vilano.
"A imigração é um grande tópico. O Congresso está votando leis. Mas há diferenças dentro da própria comunidade hispânica. Entre os que estão aqui há mais tempo, com raízes estabelecidas, muitos são contra. Os que chegaram há menos tempo são a favor de leis mais justas. Os bispos do Texas acham que devem existir leis para proteger as fronteiras dos EUA, mas também acreditam em condições mais justas, sobretudo para os que estão aqui com os filhos nas escolas", diz.
Mestiçagem
Natural de San Antonio, onde uma praça do centro foi batizada em sua homenagem, o padre Virgilio Elizondo, considerado um dos líderes espirituais mais inovadores da atualidade pela revista "Time", foi reitor da catedral de San Fernando durante 12 anos e hoje leciona teologia na universidade de Notre Dame, em Indiana.
Elizondo ficou conhecido sobretudo por sua leitura política da idéia de mestiçagem cultural e racial, defendida em livros como "Galilean Journey - The Mexican-American Promise" (A Jornada Galiléia - A Promessa México-Americana), publicado nos anos 1980 e no qual faz uma analogia entre o imigrante mexicano nos EUA (o "mestiço") e a experiência de Jesus na Galiléia.
"Acredito que, por trás da violência desencadeada por um pequeno, mas poderoso, grupo de racistas brancos em relação à questão da imigração nos EUA, esteja precisamente o medo da "mistura". É mais fácil lidar com uma divisão entre negros e brancos do que com o que fica entre uma coisa e outra. A mistura de raças era proibida nos EUA até essas leis serem tornadas inconstitucionais, em 1967. O Estado de Alabama só as eliminou em 2000."
"A religião poderia ter um papel importante na conversão dessa mentalidade da desigualdade baseada na cor, mas não ouço a igreja falando sobre isso." "No encontro de bispos em Aparecida (SP) [em 2007], todos os cardeais em torno do papa Bento 16 na sessão de abertura eram homens brancos -nenhuma mulher, nenhum pardo, nenhum negro. É uma mensagem racista poderosa enviada ao resto da sociedade", acrescenta.
O Fórum Pew estima que 1,3 milhão de católicos hispânicos tenham se convertido ao pentecostalismo desde que emigraram. "A igreja nos EUA está fazendo grandes esforços para chegar aos imigrantes, mas muitas vezes não sabe como. Nessa área, os evangélicos são muito ativos", diz Elizondo.
Conservadorismo relativo
Segundo Gastón Espinosa, professor de estudos religiosos do Claremont McKenna College, na Califórnia, e presidente da Comunidade Hispânica de Estudiosos da Religião, 53% dos imigrantes já chegam aos EUA convertidos ao pentecostalismo; o resto se converte em solo americano.
Dos 46 milhões de latinos no país, 70% se mantêm católicos.
"Os carismáticos católicos têm sido muito ativos na comunidade latina desde pelo menos 1972. E foi o que ajudou a mantê-los em torno de 70% por mais de duas décadas. Mais de 22% (7,1 milhões) da população de latinos católicos nos EUA se identifica ao mesmo tempo como renascida em Cristo, pentecostal ou carismática", afirma Espinosa.
Em geral, o imigrante hispânico que se converte ao pentecostalismo também fica mais aberto aos pontos de vista republicanos sobre a família, o casamento homossexual e outros itens relacionados.
"Mas é preciso ter em mente que, embora relativamente mais liberal em alguns desses itens, a maioria dos católicos também é contra o casamento homossexual e o aborto. No que diz respeito à liberdade de credo e de opinião, à autoridade das hierarquias religiosas e às mulheres no sacerdócio, os evangélicos são politicamente mais liberais. Os dois grupos são politicamente conservadores e liberais à sua maneira", diz Espinosa.
A imigração não garante, portanto, uma comunidade católica mais liberal. Em alguns aspectos, ao contrário, pode até torná-la mais conservadora.
"Os católicos euro-americanos tendem a ser muito mais progressistas, do ponto de vista político, do que a média dos católicos na América Latina, enquanto a hierarquia nas duas regiões tende a ser conservadora em certos assuntos (casamento homossexual, ordenação de mulheres etc.) e liberal em outros, como a pena de morte, a reforma da imigração e os direitos civis", afirma.
Newark: Alegrias do culto brasuca
"Pedi a Deus para me casar com um homem americano, alto, branco, porque estava cansada de brasileiro; em 20 minutos encontrei meu marido"
DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
A banda toca no palco que serve de altar e tem como fundo a pintura de uma cascata, enquanto três mulheres com cabelo até a cintura evoluem numa coreografia sincronizada e ondulante diante da platéia de fiéis que veio assistir ao culto, numa noite chuvosa de quarta-feira, no segundo andar da Igreja Pentecostal Missionária de Língua Portuguesa, no tradicional reduto luso de Ironbound -hoje dividido com brasileiros e hispânicos-, em Newark, Nova Jersey.
"Aqui é diferente", diz Nádia Adler, há três anos nos EUA. Casada com um executivo americano que conheceu no México, Nádia percorre 20 quilômetros de carro para vir de sua casa, numa área residencial de Summit, até Ironbound. "Igreja americana é muito sem graça. Lá onde eu moro só tem americano. Aqui tem louvor", afirma.
A Igreja Pentecostal Missionária de Língua Portuguesa foi fundada em 1992 pelo pastor Zeny Tinouco e sua mulher, Maria do Socorro. Hoje conta com mais três sucursais na região metropolitana de Nova York -em Astoria, Garden City e Manhattan.
Quando saiu de Brasília, com a mulher e os filhos, há 17 anos, o pastor deixou para trás 28 igrejas, que hoje são administradas pelo irmão, sob a denominação Ministério da Fé.
Dos aproximadamente 225 milhões de adultos nos EUA, 34 milhões nasceram fora do país e cerca de 17 milhões não dominam a língua inglesa. Entre os hispânicos, apenas um quarto é fluente em inglês.
Os cultos na Pentecostal Missionária são celebrados em português, o que não impede que muitos brasileiros usem, por força do hábito, a interjeição "yeah" antes de cada resposta que dão, em português.
Sou recebido pelo diácono Adair Braz, de Anápolis (GO), que está nos EUA há cinco anos e, na igreja, há três. Já trabalhou em construção civil e agora é empregado de uma fábrica de camisas. Ainda está ilegal.
Exportador de igrejas
Conseguiu trazer a mulher, mas o filho de cinco anos ficou no Brasil com a avó. Não pode visitá-lo, sob o risco de não conseguir voltar aos EUA.
Braz já era evangélico antes de imigrar. Pertencia à Igreja Pentecostal do Brasil para Cristo. "Acabaram de abrir uma em Nashville", diz, orgulhoso. Para brasileiro? "Não! Para americano!" O Brasil está exportando igreja para cá?
"Oh, yeah. É o segundo maior exportador de igrejas depois dos EUA. Tem igreja aqui, na África, na Rússia. E tem feito diferença, viu? A igreja brasileira se destaca. Na americana, o culto é em inglês. Aqui, tem tradutor simultâneo", diz.
O pastor Tinouco está viajando. É o filho mais velho, Fábio, quem celebra o culto. "Temos quatro igrejas começando na Flórida. Crescemos lentamente, mas mantemos o número. Somos uma igreja de imigrantes", diz.
Os cultos são transmitidos por web e em breve poderão ser assistidos pelo canal Almavision, em TV por satélite.
Paulo Tinouco, o filho mais novo, que chegou aos EUA com nove anos e participou, como fuzileiro naval, da Guerra do Iraque ("Estava no terceiro tanque a entrar no Iraque. Ficamos um mês no Kuait, antes de invadir. E depois fomos até Bagdá"), quer estudar produção de TV na universidade, para ajudar no negócio da família.
A congregação em Ironbound já teve quase 80% de portugueses. Hoje, são menos de 50%. Durante o culto, é uma senhora com sotaque português quem entoa a benção "às criancinhas". Entre os que se converteram ao pentecostalismo aqui, Rosângela Vaz.
Ela era gerente de telemarketing e vendas antes de sair do Brasil. E era católica, até sofrer grave acidente de carro, quando dirigia na estrada que liga Newark a Nova York.
Não falava inglês e tinha de responder a processo. O marido, americano de uma evangélica brasileira, se prontificou a servir de intérprete se ela fosse visitar a igreja. "E aqui o Senhor me disse que estava comigo", diz Rosângela, que foi liberada de todas as acusações e nunca mais deixou a igreja.
"Para mim, não foi nada disso. Foi o amor que me trouxe para a igreja", diz Nádia Adler, que, antes de imigrar para os EUA, "vivia em cartomante, macumbeira e espiritismo". Era modelo no México ("porque lá não precisa ser alta. São Paulo exige muita altura") quando encontrou o executivo americano com quem se casou.
"Antes usava decotão"
"Sou das poucas legalizadas. Todo mundo sabe que esse meio está cheio de prostituição e drogas. Nunca usei drogas, mas estava com problema sério de "panic". Tomava remédio. Já tinha muito temor a Deus, mas meu negócio era dinheiro. Pedi a Deus para me casar com um homem americano, alto, branco, de cabelos pretos, porque estava cansada de brasileiro. Em 20 minutos encontrei o meu marido. E me tornei evangélica. Aqui, a gente vê o poder de Deus. Não gosto de igreja tradicional. Gosto de igreja avivada, que acredita no Espírito Santo. Antes, usava decotão. Agora, não uso mais. É o Espírito Santo que molda a gente."
Houston: Materialismo mágico
"Não liguem para os problemas financeiros; não há recessão no Céu"
DO ENVIADO ESPECIAL AOS EUA
A maior igreja dos EUA fica à beira de uma auto-estrada que corta a cidade de Houston, no Texas, no antigo estádio dos Houston Rockets, o time de basquete local que, até março, permanecia invicto por 22 jogos seguidos, o segundo maior recorde de vitórias da história da NBA, a liga americana de basquete profissional. No que tange aos recordes, o Houston Rockets conta ainda com a estrela do jogador mais alto da NBA, o chinês Yao Ming. Não por acaso Lakewood, que hoje enche de fiéis as arquibancadas antes ocupadas pelos torcedores do Rockets, tem como lema: "Descubra o campeão em você". O jovem pastor Joel Osteen, 45, e sua mulher, Victoria, que lembra a menina-boneca do filme "Beleza Americana", cultivam o modelo do casal sorridente e bem-sucedido. Durante um culto recente, numa tarde de sábado, em junho, no ginásio com capacidade para 16 mil pessoas (mas ocupado apenas pela metade), os dois não falavam praticamente de outra coisa além de dinheiro e sucesso. A Lakewood pagou à cidade de Houston mais de US$ 11 milhões pelo direito aos primeiros 30 anos de uso do estádio, cuja reforma foi estimada em US$ 75 milhões. Hoje com 47 mil membros, ela foi fundada em 1959, numa pequena loja da periferia de Houston, por John Osteen, pai de Joel. O crescimento da Lakewood, como o da maioria das megaigrejas americanas, está ancorado numa enorme estrutura de mídia e marketing, com cultos transmitidos para milhões, pela TV e pela internet, além de livros de auto-ajuda nas listas dos mais vendidos -"Become a Better You" (Torne-Se Alguém Melhor), de Joel Osteen, teve tiragem inicial de 3 milhões de exemplares. O jovem pastor não fala de política ou de assuntos controversos que possam comprometê-lo ou macular a imagem de felicidade (demorou um mês para dizer que não responderia às perguntas que, a pedido de sua assessora de imprensa, lhe foram enviadas por e-mail). Prefere transmitir a mensagem difusa e abrangente do pensamento positivo -o que terminou por lhe fazer valer a pecha de "pastor sorriso" ou "evangelista light", atribuída por outros evangélicos, em geral fundamentalistas despeitados com seu sucesso. Mas, afinal, do que ele está falando quando fala de Jesus? No alto das arquibancadas, está pendurada a bandeira americana. O altar de Lakewood é flanqueado por duas cascatas que correm sobre pedras artificiais. No centro do altar, em vez da cruz, gira um globo terrestre dourado e vazado. É um símbolo do alcance global da sua mensagem. E, de fato, uma das coisas que mais impressionam quem entra no estádio são as dimensões. Vir para a igreja é estar ao lado dos bem-sucedidos, dos que venceram -o que certamente produz um efeito psicológico de auto-sugestão. Lakewood é a igreja do sucesso contagiante. Aqui está o Deus do capitalismo. E o sucesso da igreja é a prova de que Deus a abençoou. "Somos vitoriosos, não somos vítimas", diz Osteen, repetidamente, para convencer os fiéis. "Vocês ainda não viram seus melhores dias. Não liguem para os problemas financeiros. Não há recessão no Céu. Quem não está sofrendo com a alta dos combustíveis? Se vocês estão no ramo do comércio, não se deixem abalar pela crise. Enquanto Deus estiver com vocês, não haverá problema. Chegou a hora do troco para aqueles que acreditam em Deus. "It's payback time!'" No telão, o público lê as instruções sobre a contribuição do dízimo: "Cheques em nome da Lakewood Church, por favor", enquanto funcionários passam pelas arquibancadas com os baldes para o recolhimento. Ele continua: "Se você não foi promovido ou não recebeu uma herança, não fique com inveja. Deus guarda para você grandes coisas no estoque!". No dia seguinte, no culto celebrado em espanhol pelo pastor Marcos Witt, já não há nenhuma metáfora comercial, nenhuma menção direta a dinheiro. Tudo é mais velado. O materialismo peculiar da véspera foi substituído por medidas indiretas, rezas, cantorias e agradecimentos a Jesus. A mensagem da Lakewood é muito bem direcionada, e os hispânicos, ainda que tenham renunciado à tradição católica, representam um segmento de mercado que talvez não esteja preparado, por conta do seu moralismo pudendo, para relacionar Deus e o dinheiro tão abertamente. A julgar por mim, posso dizer que os estrategistas da Lakewood acertaram em cheio. Como bom latino, não pude evitar o desconforto diante do evidência despudorada do sermão da véspera. Lakewood é a igreja do materialismo mágico, onde o sucesso material, garantido pelos fiéis, é usado para convencê-los de que também podem ser bem-sucedidos. Pagam para projetar no pastor o que desejam para si. Deus é bingo!
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